Médica ginecologista defende mais políticas e atenção para mulheres no climatério dentro das empresas
A menopausa deixou de ser uma discussão restrita ao consultório e passou a ocupar também o ambiente de trabalho. Com mais mulheres permanecendo profissionalmente ativas após os 40 e 50 anos, sintomas do climatério como alterações do sono, ondas de calor, dificuldade de concentração e mudanças de humor começam a exigir atenção também das empresas.
Dados da Previdência Social, com base na PNAD Contínua, mostram que o número de mulheres ocupadas de 50 a 59 anos passou de 4,91 milhões em 2023 para 5,16 milhões em 2024, alta de aproximadamente 5%. No mesmo período, a população feminina ocupada de 40 a 49 anos também cresceu, de 7,56 milhões para 7,83 milhões.
O movimento acompanha uma transformação mais ampla do mercado brasileiro. Entre 2012 e 2024, a participação conjunta de pessoas de 50 a 59 anos e de idosos com 60 anos ou mais na população ocupada subiu de 19,1% para 24,3%, enquanto a participação dos trabalhadores de 30 a 49 anos caiu para 49,2% em 2024. Ao mesmo tempo, a presença feminina no mercado formal também avançou. Entre o segundo trimestre de 2016 e o segundo trimestre de 2025, o número de mulheres ocupadas passou de 37,9 milhões para 44,6 milhões, acréscimo de 6,7 milhões de trabalhadoras.
“A menopausa está chegando ao ambiente de trabalho porque milhões de mulheres estão vivendo essa fase justamente quando estão no auge da vida profissional. São profissionais experientes, produtivas e muitas vezes em posições de liderança, mas que podem estar enfrentando sintomas sem encontrar espaço para falar sobre isso”, afirma a ginecologista Roberta Brando, ginecologista com atuação em climatério, menopausa e terapia hormonal feminina.
O impacto não é apenas uma percepção subjetiva. Estudos científicos mostram que sintomas do climatério podem interferir no sono, na concentração, na memória, no humor e na disposição, fatores diretamente relacionados à rotina profissional. Uma pesquisa internacional que incluiu mulheres brasileiras identificou que, entre aquelas com sintomas vasomotores moderados ou graves, o comprometimento médio da produtividade e das atividades diárias foi elevado.
“Não significa que a menopausa torne uma mulher menos capaz. O problema é exigir produtividade enquanto ignoramos sintomas que podem comprometer sono, cognição e bem-estar. Quando a mulher não consegue falar sobre o que está acontecendo, ela tende a enfrentar a situação sozinha”, explica Roberta.
O silêncio também pode ter consequências para as empresas. Uma diretriz brasileira sobre climatério e menopausa cita estudo no qual 65% das mulheres avaliadas disseram que os sintomas afetam sua capacidade de trabalhar. Entre elas, 35% afirmaram que a menopausa influenciou decisões relacionadas à progressão da carreira, 18% relataram faltas ocasionais, 8% reduziram a carga horária, 7% mudaram de função e 2% deixaram completamente o trabalho por causa dos sintomas. Para a Organização Internacional do Trabalho, o problema já representa um desafio econômico global. Estimativas reunidas pela entidade apontam que 657 milhões de mulheres em idade de menopausa estão trabalhando no mundo, enquanto sintomas associados à fase contribuem para absenteísmo, presenteísmo e saída antecipada do mercado.
“Eu acho que a menopausa ainda aparece pouco nas políticas de saúde corporativa. Empresas avançaram na discussão sobre maternidade, saúde mental, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e outros temas ligados ao bem-estar, mas o climatério permanece cercado de desconhecimento e constrangimento. Por que ainda existe medo de falar? Medo de parecer frágil, de ser julgada, de ser demitida ou de ter a idade usada para questionar sua capacidade profissional. A menopausa precisa ser tratada também como uma questão de saúde ocupacional e saúde pública”, questiona a médica.
Essa resposta, segundo especialistas, não passa por criar um ambiente que trate mulheres na menopausa como profissionais frágeis, mas por oferecer condições para que elas permaneçam produtivas e saudáveis. “A mulher não deixa de ser competente quando entra na menopausa. O que não faz sentido é uma empresa investir durante décadas na formação de uma profissional experiente e depois ignorar uma fase da vida que pode ser adequadamente reconhecida e cuidada”, acrescenta a ginecologista.
Questões simples podem trazer a solução. Flexibilidade de horários quando necessária, acesso à informação, orientação médica, educação de gestores e programas de saúde corporativa podem reduzir impactos e ajudar na retenção de profissionais experientes.
“Não estou falando em tratar mulheres de forma diferente ou diminuir sua capacidade. Estou falando de informação, acolhimento e preparação. Se as empresas querem realmente discutir saúde e qualidade de vida, a menopausa também precisa entrar nessa conversa. A questão, portanto, já não é se a menopausa faz parte do mercado de trabalho, mas se as organizações estão preparadas para reconhecê-la sem transformar uma etapa natural da vida em motivo de estigma profissional”, finaliza Dra. Roberta.