A saúde mental se tornou um dos maiores desafios globais da atualidade. O sofrimento psíquico deixou de ser um ponto fora da curva para se tornar o novo padrão silencioso da sociedade contemporânea. Em 2022, a OMS (Organização Mundial da Saúde) já alertava para o impacto dos transtornos mentais em cerca de 15% da força de trabalho no mundo. E o Brasil, quarto país mais estressado do mundo, enfrenta uma verdadeira epidemia emocional. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que o Brasil teve 472.328 afastamentos por transtornos mentais em 2024, um aumento de 67% em relação ao ano anterior e o maior número da série histórica. Trata-se de um fenômeno batizado por especialistas como quiet cracking: quando a sobrecarga emocional atinge um ponto em que o afastamento é o único caminho para o tratamento.
De acordo com outro levantamento, o Ipsos Health Service Report 2025, as doenças mentais no país são, hoje, a principal questão de saúde pública, ultrapassando o câncer. A pesquisa registrou que 52% dos entrevistados têm como principal preocupação a saúde mental, um aumento alarmante se comparado ao resultado do mesmo estudo em 2018, cujo percentual era de 18%. Outro apontamento é de que 60% das mulheres e das pessoas da geração Z que participaram do estudo são os perfis mais afetados e preocupados com a saúde mental, superando homens (44%) e os baby boomers (40%).
Tal cenário tem raízes profundas nas mudanças comportamentais e sociais e no tempo acelerado que fragilizam as relações humanas, impactando diretamente a saúde mental das pessoas. Assim, a ansiedade, depressão, esgotamento emocional e crises de pânico são cada vez mais frequentes e silenciosas, gerando um cenário batizado de “a sociedade do cansaço”. Segundo Meire Rose Cassini, psicóloga especialista em saúde mental do Hospital Felício Rocho, em BH, o contexto atual é resultado de múltiplos fatores que se sobrepõem: “Vivemos uma era de hiperconectividade, excesso de informações, cobranças sociais e inseguranças econômicas. Tudo isso gera um ambiente de estresse crônico.” A especialista destaca, ainda, a cultura do “estar sempre ocupado”, que normaliza o esgotamento e impede que as pessoas reconheçam seus próprios limites.
A psicóloga aponta também o culto à imagem nas redes sociais, o isolamento e a precarização das relações humanas como elementos centrais do adoecimento. “Vivemos em um ritmo que não respeita os ciclos naturais do corpo e da mente. A falta de pausas e a dificuldade de lidar com frustrações tornam o cotidiano emocionalmente insustentável”, enfatiza.
Entre os diagnósticos mais frequentes estão depressão, ansiedade, Burnout e transtornos alimentares. “Cada um tem sintomas específicos, mas todos compartilham um ponto em comum: o sofrimento silencioso que compromete a qualidade de vida”, pontua Meire. Ela alerta que os sintomas podem variar de pessoa para pessoa, e que o diagnóstico deve sempre ser feito por um profissional especialista, de forma adequada e de acordo com cada caso, considerando a realidade e o histórico de vida, além de fatores biopsicossociais do indivíduo.
Para os brasileiros, o problema se agrava. “Além dos fatores globais, enfrentamos desigualdade social, violência urbana, insegurança alimentar e instabilidade política. Esses elementos criam um ambiente de constante tensão e incerteza”, pontua Meire. A falta de acesso a serviços de saúde mental contribui para o agravamento do quadro, pois o investimento em saúde mental no Brasil ainda é insuficiente e mal distribuído. Embora existam políticas como a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), sua implementação é desigual e muitas vezes fragilizada por cortes de verbas e falta de profissionais. “A ausência de uma política nacional robusta e contínua compromete o acesso ao cuidado, especialmente nas regiões mais vulneráveis”, explica a psicóloga.
O trabalho como gatilho
O ambiente de trabalho – muitas vezes marcado por metas inatingíveis, assédio moral, jornadas exaustivas e falta de reconhecimento – também tem representado um gatilho recorrente. São situações que geram ansiedade, depressão e Burnout. A insegurança no emprego e a pressão por produtividade constante contribuem para o adoecimento.
Para Meire Cassini, há ainda fatores emocionais individuais que também geram adoecimento, como a autoexigência excessiva, o perfeccionismo e a dificuldade de estabelecer limites pessoais. “Muitas pessoas internalizam a ideia de que precisam dar conta de tudo, o que as leva a negligenciar o autocuidado e a saúde emocional”, diz. Para a especialista, é fundamental que cada pessoa busque reconhecer e promover o autocuidado, bem como as instituições devem buscar estratégias de cuidados coletivos. Ambos – indivíduos e empresas – devem caminhar no sentido da prevenção e da promoção de cuidados permanentes e mútuos, como forma de preservar a qualidade de vida e o bem-estar integral.
Barreiras para pedir ajuda e o papel da rede de apoio
Outro comportamento comum das pessoas que sofrem com transtornos mentais é a resistência em buscar apoio. Meire aponta uma combinação de barreiras emocionais, sociais e culturais. “O estigma ainda é muito forte. Há medo de julgamento, vergonha, negação do sofrimento. Culturalmente, ainda se acredita que problemas emocionais são fraqueza ou que ‘vão passar sozinhos’.” Por isso, ela enfatiza que, quando a mente pede socorro, o primeiro passo essencial é reconhecer que a própria saúde mental está comprometida. “Quando o sofrimento interfere nas atividades diárias, nas relações e na qualidade de vida, é hora de buscar ajuda. O corpo também fala: dores recorrentes, tensão muscular e insônia podem ser sinais de alerta.”
Já o envolvimento da família, amigos e colegas de trabalho é fundamental para formar uma rede de apoio emocional e afetiva em torno do indivíduo que sofre com algum tipo de transtorno mental. “Cuidar é um ato coletivo e mútuo. Escutar com empatia, sem julgamentos, é o primeiro passo. Estar presente, respeitar os limites da pessoa e incentivá-la a buscar ajuda profissional são atitudes que fazem diferença.” O importante é nunca minimizar o sofrimento, dar conselhos simplistas ou tentar resolver tudo sozinho. “O ideal é criar um ambiente de confiança, onde a pessoa se sinta segura para falar. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, alterações no sono e apetite são sinais de alerta,” reforça a especialista.
Para Meire, cuidar da saúde mental exige ações em múltiplas frentes. “No nível individual, é preciso cultivar hábitos saudáveis. No coletivo, precisamos de ambientes mais humanos e políticas públicas que garantam acesso ao cuidado. A saúde mental não é um luxo — é um direito.”