Catadores de materiais recicláveis estão entre os grupos mais vulneráveis da economia informal aos eventos climáticos extremos, porque dependem diretamente do espaço urbano, da mobilidade, da integridade dos galpões e da qualidade física dos recicláveis para garantir renda diária. A conclusão é de um monitoramento da WIEGO, organização internacional que representa trabalhadores informais em diferentes países. O estudo acompanha os impactos das mudanças climáticas sobre catadores em cidades como Belo Horizonte, Salvador, Manaus, Belém, Brasília e Florianópolis, além de municípios de outros países.
Na capital mineira, o levantamento registrou os efeitos das chuvas intensas na cooperativa Coopesol Leste, entre os dias 6 e 7 de março de 2026. Na ocasião, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) registrou 111,2 milímetros de chuva em poucas horas, o equivalente a 62% de todo o volume esperado para o mês. A água invadiu áreas de triagem e armazenamento da cooperativa, provocando infiltrações, interrupção das atividades e danos aos materiais recicláveis, principalmente papel e papelão. Só a Coopesol processa cerca de 60 toneladas de recicláveis por mês e gera uma receita média mensal de R$ 65 mil.
O monitoramento também identificou riscos elétricos, degradação estrutural do galpão, proliferação de vetores, dificuldade de coleta e perda de renda dos cooperados. Segundo a WIEGO, a infraestrutura atual da cooperativa não suporta eventos climáticos intensos e não há medidas estruturadas de adaptação climática implementadas no local.
Para debater possíveis soluções e parcerias entre o poder público e essa categoria, representantes de cooperativas de catadores de materiais recicláveis e organizações socioambientais se reúnem amanhã (quarta-feira, 27), na Prefeitura de em Belo Horizonte, com o intuito de pensarem juntos formas de financiamento para promover a resiliência climática no setor. O evento “Diálogos de Políticas Públicas: Catadores e Financiamento para Resiliência Climática”, acontece das 13h30 às 17h30, no Auditório 1, e é promovido pela organização internacional WIEGO, em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte, o Instituto Clima de Política e a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC).
Durante o evento, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belo Horizonte anunciará um Plano de Educação Ambiental Climática e a criação de um grupo técnico de trabalho com participação dos catadores. Outro grupo de trabalho será criado para acompanhar a implementação do Plano de Ação Climática (PLAC) do município, também com representação da categoria.
O encontro ocorre em um momento em que enchentes, alagamentos, chuvas intensas e ondas de calor vêm afetando diretamente cooperativas de reciclagem em diferentes regiões do país, comprometendo equipamentos, galpões, materiais recicláveis e a renda de milhares de catadores. As profundas desigualdades no acesso ao financiamento climático global agravam ainda mais a busca por soluções. De acordo com o relatório Climate Finance for the Urban Poor: An Analysis of Global Climate Funds, da Cities Alliance, apenas 3,5% dos recursos globais destinados ao financiamento climático nas últimas duas décadas — cerca de US$ 1,2 bilhão — chegaram a projetos voltados para assentamentos informais e populações urbanas vulneráveis, incluindo trabalhadores da economia informal.
Segundo Sonia Dias, especialista global em resíduos da WIEGO, incluir os catadores nas estratégias de adaptação climática deixou de ser uma escolha. “Os catadores estão entre os trabalhadores mais expostos aos impactos da crise climática. Eles enfrentam perdas constantes de infraestrutura e renda, ao mesmo tempo em que seguem desempenhando um papel essencial na reciclagem e na redução de emissões nas cidades. É impossível discutir adaptação climática sem incluir quem já atua diariamente na linha de frente da sustentabilidade urbana”, afirma.
O projeto de Monitoramento de Eventos Climáticos Extremos da WIEGO busca desenvolver um sistema permanente de acompanhamento da relação entre extremos climáticos, condições de trabalho e meios de subsistência de catadores de materiais recicláveis.
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